domingo, 2 de maio de 2010

Nosso desafio é a ENERGIA - Resumão III

Opções energéticas para manter e ampliar o desenvolvimento
e os impactos no meio ambiente e no tecido social

A única energia limpa que existe é a que não se necessita! O que existe são energias menos degradantes tanto para o meio-ambiente quanto para o tecido social” – Ildo Sauer professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.

Foi com esta frase que Ildo abriu sua palestra no dia 13 de abril de 2010 na Conferência “O que é Política Verde Hoje”, organizada pela Fundação Heinrich Böll em comemoração aos 10 anos de atuação no Brasil.

A frase de Ildo aponta para o desafio a ser enfrentado pelo mundo em termos energéticos. Ele afirma que “NÃO EXISTE ENERGIA LIMPA”, que mesmo as renováveis têm impactos negativos.

O site da ONG Planeta Sustentável cita as cinco modalidades de energias “limpas” e em cada uma delas descreve os prós e contras.

Os parques eólicos, por exemplo, além de causarem poluição visual, às vezes sonoras também, muitas vezes, provocam a morte de aves. As hidrelétricas de grande porte já desalojaram no Brasil cerca de 330mil pessoas, segundo o Greenpeace. Além disso emitem, devido à decomposição da vegetação submersa, consideráveis quantidades de metano – que contribui 21 vezes mais para as mudanças climáticas, se comparado ao CO2.

Dando andamento à palestra Ildo comentou sobre o PAC 2 e os planos do governo de construir até 2017, 71 usinas hidrelétricas, com capacidade de produção de 29 megawatts. O equivalente a um aumento de 30% em relação ao que se produz de energia hoje no Brasil. Segundo Ildo as hidrelétricas estariam distribuídas da seguinte forma:

• 15 na Bacia Amazônica;

• 13 entre Tocantins e Araguaia;

• 18 no Rio Paraná, área rural densamente povoada por imigrantes alemães e italianos;

• 4 no Rio Uruguai, que concentra descendentes poloneses.

O que se nota é um esforço global para diversificar a oferta de energias renováveis, aquelas não liberem CO2, um dos causadores do aumento do efeito estufa, responsável pelas mudanças climáticas. O Brasil ainda detém a matriz energética mais equilibrada, entre o 30 países mais ricos do mundo, usamos fontes renováveis e não renováveis.

Mas com a descoberta do petróleo do pré-sal, em 2007, o desafio do Brasil em termos energéticos passou a ser: Como planejar um futuro com energia limpa, de baixa emissão de CO2, se daqui a dez anos estaremos iniciando a exploração em nosso território de 5 billhões de barris de petróleo?

Se as energias alternativas custam caro o governo deveria planejar que parte da receita gerada a partir desta “Amazônia Azul”, ou Província do Pré-sal”, seja investida no planejamento de um futuro com matriz energética bem diversificada. Por que caso contrário, o Brasil ficará sem o petróleo e sem energia. Isso é estratégia sustentável.

Mas a exploração do petróleo do pré-sal está prevista para iniciar só em 2020 é preciso então produzir energia a partir do que temos hoje. Do site do Planalto http://migre.me/Ba0C dá para se ter uma ideia das opções de matriz energética que utilizaremos durante os próximos anos. O governo dará prioridade às fontes competitivas, renováveis e de baixa emissão de carbono.

Segundo o site e blog do Planalto estão previstas no PAC 2 a construção de 12 centrais hidrelétricas só na região amazônica, incluindo PCHs (Pequenas Centrais), UHEs (Usinas) e CGHs (Centrais Geradoras de Energia Elétrica). Débora Calheiros, pesquisadora do EMBRAPA no Pantanal, em entrevista à revista JB Ecológico (nº99) alerta para o perigo de se alterar o fluxo natural das águas do Pantanal.

Débora defende a não intervenção no sistema hidrográfico do bioma e Marcelo Furtado do Greenpeace diz que a melhor opção é um mosaico de tecnologias de geração de energia estrategicamente espalhado pelo Brasil e a melhor aplicação desta energia. “A hidroeletricidade é uma das mais sustentáveis, mas temos que levar em conta o tamanho e a localização”.

“Criar barragens em uma região que deveria ser conservada, que é patrimônio nacional da humanidade é temerário” – Débora Calheiros

Professor Ildo acredita que o desafio do Brasil em termos energéticos é encontrar soluções que levem em conta dois aspectos a DEMOCRACIA e a SUSTENTABILIDADE.

Ildo lembra que na Declaração do Direitos Humanos, que data de 1948, não consta a questão da sustentabilidade. Na época ainda não havia essa preocupação. Hoje os direitos defendidos neste documento devem ser incluídos no planejamento de desenvolvimento dos governantes do ponto de vista da sustentabilidade.

Garantir por exemplo o direito à propriedade tradicional originária das comunidades indígenas e de colonos, em torno do Rio Xingu e do Rio Paraná e Uruguai respectivamente, é uma questão pouco dialogada e que tem sido mantida de fora do planejamento do PAC 2.

A construção dessas usinas está baseada na prerrogativa da administração pública de desapropriar “por necessidade pública ou interesse social” sem estratégia para o futuro destes povoados tradicionais locais. Muitas das 330mil pessoas que o Greenpeace aponta terem sido desalojadas por conta da construção de usinas hidrelétricas nunca mais foram reassentadas.

Para Ildo há ainda uma outra questão. “Para onde vai esta energia?” Ele aponta para a resposta: “30% vão para os parques industriais siderúrgicos, alumínio e aço ou para abastecer países vizinhos como o Paraguai, 100% dependente da energia da Itaipu Binacional. Pouco se vê revertido para as comunidades do entorno da usina.

A explicação está no fato de as linhas de transmissões serem interligadas, “se o fluxo for interrompido para fornecer energia para a região local, quando chegar a energia na região sudeste ela não chegará com tanta força” – foi o que explicou uma das guias da Itaipu Binacional.

Um dos principais problemas apontados pelos ambientalistas é a falta de diálogo entre governo e sociedade. Os líderes ainda detêm o nosso futuro. Para Marcelo Furtado além da sociedade não estar mobilizada existe a necessidade de diversificar a agenda, de expandir a discussão, tirar dos ambientes pensantes e ir para rua e de mudar o cenário político.

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